O gnóstico em cada um de nós


Reflexões sobre o mal e o vazio


O cineasta Woody Allen é conhecido por suas comédias românticas bem humoradas que trazem sempre um quê de existencialismo trágico em suas entrelinhas. Em Hannah e suas irmãs (1986), filme clássico do diretor, há uma subtrama com uma contundente reflexão acerca de Deus, da morte e do vazio humano.
Mickey Sachs (Woody Allen) é um hipocondríaco ferrenho. Em um de suas crises acerca de uma possível perda de audição, recebe do médico o possível (há suspeitas) diagnóstico de um tumor no cérebro. Como uma típica característica dos personagens autobiográficos de Allen, Mickey se apavora numa neurose delirante.
Ao estar à beira do precipício existencial, pronto para receber a constatação de sua doença, o personagem descobre ser tudo um engano: não havia nada, ele estava saudável. A provável e mais esperada reação seria de extrema felicidade e alívio orgásmico, mas não para um personagem de Allen.

Mickey desaba.

Seguindo Nietzsche, quando se olha muito para o abismo, ele olha de volta para você¹. Mickey ao se deparar com a morte eminente, dá de cara com o vazio humano. O vazio de significado.
A partir daí o personagem sai - neurótico -  em busca de significado. Partindo de religião em religião atrás de explicação para a vida perante a inevitável morte.

Não encontra.

À seu modo, após tentar tirar a própria vida, Mickey tem uma epifania e chega a conclusões bem nietzschianas acerca do sentido e da razão da existência. O sentido da vida é a estética, o prazer. O sentido da vida é a vida.

 Mas e se não houver mesmo um sentido na vida?

Pois bem. Esta anedota introdutória é interessante para chegarmos ao cerne do ensaio: O vazio humano e a busca de significado.
O humano é um ser de significado, e possuímos essa característica desde o alto paleolítico, quando buscamos atribuir um sentido cósmico aos mais banais e rotineiros eventos naturais. Está em nosso âmago. E na modernidade isso ainda é altamente presente.
A busca de significado no mundo pós-moderno se limita à vaidade e ao narcisismo. O eu é a definição de tudo, e é para ele que se deve viver. Mas toda essa aparente noção de autoconhecimento e de resolução interior é uma mera fachada, esta que esconde as aflições presas no fundo da alma humana, as aflições que buscam significado.

Peguemos os conceitos do bem e do mal, ambos intrínsecos nas noções morais humanas, mesmo nos povos mais bárbaros da espécie. Qual desses dois conceitos é o princípio à gerir o universo?

Se Deus é bom, por que o mundo é mau?

Isso foi a base de pensamento da filosofia gnóstica primitiva, que foi uma heresia do começo do cristianismo, e segundo algumas de suas narrativas, o mundo foi criado por um deus mau.
O demiurgo, filho de Pistis Sophia (Sizígia da sabedoria que habita o Pleroma) é um deus fruto da agonia e do desespero, e tendo essas características, cria o mundo. Numa espécie de dicotomia de imagem e semelhança.
Fruto deste deus mau, o mundo é desesperado e intrinsecamente ruim. Sophia, ao ver isso chora, e suas lágrimas caem em alguns dos homens. Esses seriam os gnósticos, ou também chamados pneumáticos.
Jesus, dentro da narrativa, seria uma emanação do Deus Desconhecido para resgatar essas almas. Apenas essas.

A parábola descrita acima se encontra em um dos textos apócrifos, chamado evangelho da verdade, que é considerado o centro da tradição valentiana.²  Nele se encontra uma visão trágica sobre a concepção e a definição de mundo, muito diferente dos textos encontrados no Novo Testamento, onde as noções de amor e misericórdia são abundantes.

O que toda essa noção gnóstica traz, é a concepção da tragédia na existência humana, é a dúvida acerca do real significado. Somos apenas poeira das estrelas? ³

Isso não nos escapa. Nas noites onde você deita a cabeça no travesseiro, com o corpo gritando e exalando cansaço, ao invés de dormir, você pensa. Pensa nos problemas, em como mesmo você sendo bom, o mundo é mau para convosco. Nas noções de bem e de mal. Na noção de Deus e de sua participação no sofrimento humano.

A noção gnóstica, além de sua sublime beleza melancólica, é altamente sensata em suas concepções de mundo. Ao duvidar e ao perceber a realidade assim como ela é. Talvez não haja sentido algum. Talvez a humanidade seja um conglomerado de seres hílicos, e nós todos somos entes sem alma nem espírito, vivendo pelos prazeres animalescos. E numa condescendente e arrogante percepção, cremos ser mais que isso. Cremos num grande significado, e voltando na noção de eu, nas teologias modernas mais baratas, este seria o significado.

Nada soa mais elegante, sublime e belo em aspecto cosmológico como a noção de Deus. E talvez, Ele acredite tanto em nós, que nos dá a possibilidade da desconfiança.

Somos ingratos cosmológicos.


Referências

¹ Além do bem e do mal - 1886 - Friedrich Nietzsche
² Valentim - c. 100 - c. 160 
³ Carl Sagan (1934 - 1996)



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