República Popular da China, o final




        Zhànlüe - 戰略, Zhíxíng - 執行, Jiéguö - 結果. E assim temos no chinês tradicional, os pilares para a sobrevivência de qualquer país: Estratégia, execução e resultado. No texto passado, “República Popular da China, parte 1” (para melhor compreensão do texto, leia a primeira parte) trouxe a todo imaginário social, como os chineses se organizaram em torno de estratégia, colocando as suas ideias em prática. De que forma executaram essas ideias e hoje, traremos o último pilar do planejamento estratégico, os resultados.

        É importante se ter em mente que hoje, a China não é simplesmente o país das bugigangas, onde se exporta de guarda-chuvas a caixas de som pela Aliexpress, não mais. Hoje estamos falando da segunda maior economia do mundo, dos maiores exportadores de bens, segundo maiores importadores de bens, de um país onde algumas cidades-estados vêm sua geração de riqueza dobrando de 4 em 4 anos, lar de 89 unicórnios (startups que valem mais de 1 bilhão de dólares), apenas os americanos conseguem superar esse número e provavelmente, o país que mais investe em infraestrutura no mundo, haja visto, ter consumido mais cimento em 3 anos (2011-2013) do que os Estados Unidos em todo século XX.

        A população sentiu na pele as reformas começadas desde a década de 80. O FMI estima que mais de 850 milhões de pessoas, saíram da extrema pobreza. A renda per capita na era de Xi Jinping, já aumentou aproximadamente 30%. Com quase 1 bilhão de pessoas consumindo mais produtos, tendo o seu poder de compra aumentado, a China tem se tornado mais importante globalmente, e hoje “ostenta” o maior PIB por poder de compra do mundo.

          Como citado no texto anterior, com todo o crescimento, os problemas acompanharam também. O endividamento chinês, explodiu. A dívida total (end. governo + família + empresas) da China chega a 265% do PIB, conforme dados do FMI. O fato mais surpreendente é o endividamento público que já chega a quase 50% do PIB. A princípio, o número em si não é tão alarmante, mas olhe por esse ponto de vista. Observe o gráfico abaixo:

Evolução da dívida desde 2008 em % do PIB (China)*




Evolução da dívida até 2020 em % do PIB (Estimativas)**

Para quem acompanha os números fiscais de alguns países, pode não achar a o aumento de 20,6% no endividamento em 10 anos, negativo, até porque, Estados Unidos e Brasil, por exemplo, dois opostos, também tem a evolução de forma acelerada. Porém, os americanos passaram por uma crise sem precedentes em 2008 e que afetou a grande maioria dos países, alguns começaram a esboçar alguma reação agora, passados 10 anos. Já o Brasil, não é lá uma grande referência e o fato da evolução do endividamento chinês ser parecido com o dos brasileiros, torna esse número ainda mais negativo considerando o momento atual.

Em tese, seria tudo mais constante levando em consideração os gráficos acima? Não, a China passa por um momento difícil, toda a estratégia dava muito certo pelo fato do estado e o banco central chinês, oferecer incentivos e subsídios a determinadas áreas, um investimento muito superior em infraestrutura, porém o estado pesou. A iniciativa privada não consegue ter o mesmo folego, já que são sufocados pelas regras internas e a demanda está diminuindo, o aumento de consumo da classe média fora de seu país aumentou e os habitantes poupam muito menos. O que acontece? Desaceleração econômica:

Evolução do PIB taxa de crescimento em % (Estimativas)***



PIB por poder compra, endividamento frente ao PIB, evolução da dívida, evolução do PIB por taxa de crescimento em %. Todos esses dados são do cenário agregado, é como estar dentro de um avião e olhar um estádio de futebol, você não conseguirá enxergar os detalhes. Esses números servem para comprovar que realmente a China é um mercado consumidor global e que, por conta disso tem grande relevância. Europa e América do Sul, continentes que hoje são inundados pelas demandas chinesas, demandas que foram e ainda são importantíssimas para aceleração econômica no pós-crise de 2008. Na iniciativa privada, é comum o termo “crescimento de qualidade”, é justamente isso que os chineses tentam, através dos incentivos dados as grandes empresas, sua grande maioria os bancos estatais, petróleo e gás, empresas do comércio eletrônico ou tecnologia que fazem grandes fusões e aquisições por vários países, não é incomum alguns governantes estarem "com o pé atrás" vendo as estratégias chinesas. Jair Bolsonaro, presidente eleito do Brasil, diz sempre em suas entrevistas: 

“A China tem que comprar no Brasil e não comprar o Brasil” .

Donald Trump é cético protagonista na guerra comercial EUA x CHINA (déficit comercial que tem com os chineses, tentando um nova negociação comercial, enquanto isso, impõe tarifas) e não é à toa, de acordo com um relatório da consultoria KPMG, de cada USD 100 investidos no mundo USD 12 vem da China



Essa é a evolução do capital gasto pelas empresas chinesas fora de seus territórios, a receita é basicamente tomar empréstimo em seu próprio país, para fazer aquisições pelo mundo a fora. Em 2016, o valor gasto foi 4x superior ao valor de 2011. A nível de curiosidade sobre negócios, a China já se encontra em 46º no Doing Business, para um país que ainda começa a abrir a sua economia e tem um “Partido Comunista” a frente de seu poder, não é de todo mal.

A dificuldade de todo país emergente é exportar matéria prima a preço baixo e importar produto de valor agregado, outras tecnologias, a valores altíssimos. Por conta de ser um exímio exportador, por anos a China gozou de um superávit comercial com reservas estimadas em USD 3,3 trilhões. O que tudo isso tem a ver com o ceticismo dos governantes? Por conta de todos esses números, todas essas aquisições, os chineses passaram a ser levados muito mais a sério, por isso, alguns acreditam que a China tem “roubado propriedade intelectual” e saindo a frente em busca de inovações. Não entendeu? Basicamente comprar empresas fora de seu país, dá acesso a tecnologias, conhecimentos e recursos que não se acha com facilidade em qualquer país, imagine as vantagens que isso gera no longo prazo. Por conta disso, hoje a China é um dos países com maior comércio de robôs (automação) do mundo.


E o resultado de inovação:


A China de 1998 a 2012 saltou de USD 50 bilhões em investimentos em P&D (pesquisa e desenvolvimento) para USD 200 bilhões. Todo esse incentivo contribui com cases impressionantes, é ver para crer. Observe a empresa de comércio eletrônico, Alibaba que teve o maior IPO (Oferta inicial pública de ações) da história na bolsa de Nova York, arrecadando o valor de 25 bilhões de dólares, a frente inclusive do Facebook que arrecadou 16 bilhões de dólares, de acordo com a Forbes. Veja o editorial;





        O dia dos solteiros da China é equivalente ao que conhecemos como Black Friday. O valor de US$ 30,8 bilhões registrados por uma única empresa do e-commerce, é equivalente a todo valor vendido (por empresas do comércio eletrônico) durante 1 ano no Brasil e todas empresas juntas (mesmo segmento) dos Estados Unidos em 1 dia de Black Friday. Novamente, este não é um fato isolado e explica o principal vetor de crescimento do país asiático, comércio. Os chineses gastam US$ 730 bilhões em comércio eletrônico por ano. Simplesmente surreal!

        Este estudo até aqui, trás mais de 1.200 palavras, mais de 5.000 caracteres e chega ao fim, com qual conclusão? A China é um país que cresceu muito, a um ritmo extremamente acelerado, mas terá grandes desafios, o primeiro é controlar os próprios anseios ao diminuir o crédito, reduzir a dívida... Construir menos infraestrutura e investir em indústrias de valor-adicionado e em tecnologia própria, enquanto se expande o papel do consumo e do empreendedorismo privado e do setor de serviços na economia. Nenhuma experiência socialista deu certo até aqui, independente das características e ainda não dará certo. Segundo o FMI, caso a China mude o vetor de crescimento, se abrindo politicamente e economicamente, permitindo maior participação do setor privado e de fato tornar-se uma economia de mercado, a previsão é de 2030 passarem os EUA em PIB nominal, beirando o número de 30 trilhões produzidos. Teremos não só a voracidade do poder de compra, mas uma economia consolidada, baseada em princípios de mercado, o principio dos ganhadores. Enquanto isso, não duvidem.






Outros números e curiosidades sobre a China:

- Produtividade do trabalho chinesa chega a aprox. USD 35 mil, pela primeira vez nos últimos 50 anos e se iguala a produtividade brasileira (2015, Exame edição 1144).

- China é o maior mercado de carros elétricos do mundo e a maiores fabricantes de painéis solares do mundo (Exame edição 50 anos).

- Projeto Air Quality Index. Através de um app, qualquer chinês pode checar a qualidade do ar em tempo real e denunciar fábricas que estejam poluindo mais do que o limite permitido por lei (Exame edição 50 anos).

- Shenzen na China, é conhecida como “Vale do Silício Chinês”.

- De acordo com estudos, a China demorará 10 anos para ter um ar saudável.

- PIB per capita: 8000 dólares (2017).

- Em 2016 USD 100 bilhões separaram os investimentos feitos por EUA e China no exterior. EUA USD 300 bilhões / CHINA USD 200 bilhões (Fonte: KPMG).

Fontes e referências:

Fontes já estão contidas no texto.

Gráficos: 

* https://pt.tradingeconomics.com/china/government-debt-to-gdp
** https://pt.tradingeconomics.com/china/government-debt-to-gdp
*** https://pt.tradingeconomics.com/china/gdp-growth-annual

















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