A genialidade keynesiana?



Se o Tesouro se dispusesse a encher garrafas usadas com papel moeda, as enterrasse a uma profundidade conveniente em minas de carvão abandonadas que logo fossem cobertas com o lixo da cidade e deixasse à iniciativa privada, de acordo com os bem experimentados princípios do laissez-faire, a tarefa de desenterrar novamente as notas (naturalmente obtendo o direito de fazê-lo por meio de concessões sobre o terreno onde estão enterradas as notas), o desemprego poderia desaparecer e, com a ajuda das repercussões, é provável que a renda real da comunidade, bem como a sua riqueza em capital, fossem sensivelmente mais altas do que, na realidade, o são. - John M. Keynes, em seu livro: A teoria geral do emprego, do juros e da moeda¹

         Começo o texto com essa citação, no minimo, embaraçosa. Recentemente encomendei um trabalho realizado pelo economista Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel e que se auto em titula como  "economista keynesiano" ou então para alguns, como já definido pelo economista Paul Samuelson em 1997, "neokeynesiano". Dentre várias citações de Keynes, que tem o poder de encantar até serpentes (a classe politica e analistas brasileiros que o digam), talvez essa seja uma das mais bizarras. O motivo do texto, da citação e da relação com Krugman é que de fato, mesmo 70 anos depois, o pensamento keynesiano está mais vivo do que nunca. Se observarmos, de 2001 para cá, muitos economistas, alguns ganhadores do prêmio Nobel, seguem a linhagem do pensamento keynesiano. 

        Uma crença muito popular entre economistas, analistas, jornalistas, colunistas e afins, é a máxima do crescimento ser sempre gerado pelo aumento da demanda por bens e serviços, e ainda, seguindo esse raciocínio, a crença do aumento de produção total, gerado pelo aumento múltiplo de gastos do governo, empresas e famílias. Onde pretendo chegar com toda essa exposição? Sabe a literatura que os governantes gastões, quando vão falar sobre economia, dizem que leram? É ai que está ela, partindo deste pensamento e isso pode ser perigoso.

        O exemplo prático se encontra no Brasil em especial, país que passou por uma eleição presidencial. Foi costumeiro ouvir frases como a de Haddad dizendo que a "crise artificial, foi inventada" e o que o "investimento público deveria aumentar para gerar mais empregos". Ou até mesmo Ciro Gomes em entrevista a Carta Capital:


"Eu não acredito nessa história de atrair investimento privado, isso é tudo papo furado, isso nunca aconteceu na história da humanidade, essa agenda do bom "mocista" neoliberal internacional."Ciro Ferreira Gomes

       Não posso aqui antecipar um movimento de onda, já que não tenho um estudo completo sob esse caso, não é algo novo, mas é fato que presenciamos uma guinada de políticos, tentando guiar uma população para esse tipo de pensamento. Como Mises bem definiu em seu livro as seis lições "o governo quer arrogar a si mesmo o poder - que, na economia de mercado livre, pertence aos consumidores".²

      O problema da causa apontada por Keynes e Krugman posteriormente, é sempre o efeito. Gastos governamentais financiados via inflação, aumento de impostos, aumento do endividamento, o estimulo da demanda pelo gasto das famílias, retirando a sua capacidade de poupança. A grosso modo, todas essas medidas não contribuem para geração de riqueza, são fatores destrutivos no longo prazo. Porém, até mesmo o longo prazo para os simpatizantes deste, não parece ser muito importante, já que o próprio Keynes define:


No longo prazo, estaremos todos mortos
   
       De fato, existe um contexto por trás das citações, das causas e efeitos citadas. Porém o objetivo do texto é apenas provocar a "genialidade keynesiana" que tem como seus adeptos, os ganhadores do Nobel e que para cada provocação ou critica feita ao modelo, citam um "contexto" que não condiz com a realidade. A realidade é que o modelo foi posto em prática na copa do mundo de 2014, sediada no Brasil, na olimpíada do Rio em 2016, onde juntas, de acordo com alguns jornais, foram gastos aproximadamente R$ 66 bilhões em que mais de 50% do gastos veio dos cofres públicos³ e qual foi o retorno? O que você espera de um investimento de R$ 66 bilhões? O Brasil e o Rio de Janeiro, como se encontram?
       
       Pode ainda se dizer que o dinheiro foi mal gasto, o recurso foi alocado nos ativos errados e que existe um "contexto" para explicar tudo isso. De acordo com o próprio Keynes;


O antigo Egito tinha a dupla vantagem, que sem dúvida explica a sua fabulosa riqueza, de possuir duas espécies de atividades: a construção de pirâmides e a extração de metais preciosos, cujos frutos, pelo fato de não servirem às necessidades do homem pelo seu consumo, não se aviltavam por serem abundantes. A Idade Média edificou catedrais e entoou cânticos. Duas pirâmides, duas missas de réquiem valem duas vezes mais que uma — o que, porém, não é verdade tratando-se de duas estradas de ferro que ligam Londres a York. Destarte, assim nos mostramos tão razoáveis e nos educamos de modo tão semelhante aos financistas prudentes, meditando bem antes de aumentar as cargas “financeiras” das futuras gerações pela edificação das casas, onde se pode viver, que já nos não é tão fácil escapar aos inconvenientes do desemprego⁴. - 

       Ou seja, não importa se gastam com pirâmides, se simplesmente colocam o dinheiro em garrafas e enterram, o importante é gastar. Faltou avisar a um sujeito chamado "mundo real".




Fontes e referências:

¹ Citação de John M Keynes:
Livro Teoria geral do emprego, do juros e da moeda, cap. 10

² Citação de Ludwig V Mises:
Livro As seis lições, cap. 3

³ Gastos total gerado pela Copa do Mundo e olimpiada do Rio:
https://www.hojeemdia.com.br/primeiro-plano/investimentos-de-r-66-bilh%C3%B5es-em-copa-e-olimp%C3%ADada-contribu%C3%ADram-pouco-para-avan%C3%A7o-do-pa%C3%ADs-1.381036

⁴ Citação de John M Keynes:
Livro Teoria geral do emprego, do juros e da moeda, cap. 10






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